Carta n. 6: para a sociedade entender nossa ocupação; a luta continua

Nós ocupamos por 8 dias o principal canteiro de obras da usina hidrelétrica Belo Monte. Queremos a consulta prévia e a suspensão de obras e estudos das barragens nos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires, sobre as quais não fomos consultados.

Nós fomos retirados ontem do canteiro por uma decisão judicial.

Durante a ocupação, vocês barraram pessoas, censuraram jornalistas, impediram advogados, não deixaram entrar carvão para cozinhar nossa comida. Carros com agentes de saúde fora bloqueados, tiveram que entrar a pé. Vocês não nos deixaram montar nosso rádio para falarmos com nossos parentes, e nossas famílias ficaram preocupadas.

Vocês nos sitiaram com a Polícia Militar, Rotam, Tropa de Choque, Força Nacional, Polícia Federal, Polícia Civil, Exército e Polícia Rodoviária Federal o tempo todo. Gerentes e chefes da Norte Energia e Consórcio Construtor Belo Monte nos assediavam, intimidavam e pressionavam.

Vocês tentaram nos sufocaram com mentiras na imprensa, com telefonemas pressionando e intimidando parceiros e jornalistas. Como sempre, vocês pressionaram e manipularam parentes nossos, tentando nos colocar um contra os outros.

Nós sentimos medo do que poderia acontecer, já que a delegada-chefe da Polícia Federal (responsável pelo relatório no qual foi baseada a decisão horrível da desembargadora Selene Almeida) é esposa do advogado da Norte Energia, autor da ação que queria nos retirar de lá.

Nós fomos retirados à força do canteiro. Uma força maior ainda que a das armas do seu exército. A reintegração não foi suspensa. A Justiça deu 24 horas para sairmos do canteiro, e só soubemos disso quando chegamos em Altamira, escoltados pela Polícia Federal.

Nossa saída foi pacífica porque nós decidimos que ela fosse pacífica. Ficou claro que o governo faria o que fosse necessário fazer com a gente para nós sairmos. Saímos porque fomos obrigados. Nós esperamos uma semana a chegada do governo, e nada. Entendemos, então, que ele não iria vir de qualquer jeito – mas ia continuar mandando policiais. Nós víamos os policiais cantando pneu coçando suas armas e bombas e escudos na nossa frente. Sabemos o que isso significa.

Nós saímos insatisfeitos.

Vocês tentaram forçar nossa pauta como sendo apenas sobre uma hidrelétrica no rio Tapajós. Nossa luta se refere a uma dúzia de barragens nos três rios, e ela não acabou porque fomos retirados do canteiro.

Nossa luta está recomeçando, e isso é uma vitória. Uma vitória que é só nossa – não é da Justiça e nem do governo. O governo não sabe governar indígenas. As coisas estão ruins no Brasil. Nós vamos mudar isso.

Altamira, 10 de maio de 2013

8 Respostas para “Carta n. 6: para a sociedade entender nossa ocupação; a luta continua

  1. Pingback: Letter No 6: for society to understand our occupation;; the fight continues | Indigenous Brazil~·

  2. eu estou aqui a minha mesa com meu laptop fazendo uma tradução dessa carta para ingles, eu sei que no mesmo tempo alguma pessoa aí esta fazendo quase a mesma coisa, o processo de traducao é intimo, de mais em mais eu entendo voces atraves desse trabalho com palavras, e por isso que eu nao espero sua traducao, mesmo se fosse melhor, mais perto do sentido que voces querem comunicar, nao, dentro do processo de conhecer suas palavras de tal perto eu sinto tambem mais perto de vocês, é isso – e de verdade, sinta muito bom mesmo – entendeu? obrigado

  3. Muitos interesses financeiros são em jogo, à começando por Dilma, cuja campanha presidencial foi financiado em parte por Correa … Eu nunca acreditei em uma solução pacífica porque todos aqueles que se beneficiam desta barragem não se preocupam de causar um crime contra a humanidade e o meio ambiente. A ditadura é calar a boca, a democracia é falar sempre… Parabéns aos Munduruku pela coragem deles.
    Trop d’intérêts financiers sont en jeu, à commencer par ceux de Dilma dont la campagne présidentielle a été en partie financée par Correa… Je n’ai jamais cru à une solution pacifique car tous ceux qui tirent avantage de ce barrage se moquent de provoquer un crime contre l’humanité et l’environnement. La dictature c’est ferme ta gueule, la démocratie c’est cause toujours… Bravo aux Mundurukus pour leur courage.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s